Pinça #10
Ainda a Ursula K. Le Guin
✹ Pinça é uma seção sobre criação literária. Nela, compartilho trechos que pinço do que ando lendo e acho que você também vai gostar.
Continuo obcecada pela coletânea de textos da Ursula K. Le Guin que citei na última postagem, Sem tempo a perder: reflexões sobre o que realmente importa, publicada pela Editora Aleph. Como mencionei, ela reúne uma seleção de textos da autora publicados em seu blog: alguns trazem observações filosóficas, outros falam sobre literatura e outros sobre o cotidiano, como os que ela escreve sobre Pard, seu gato de estimação. O que há em comum entre todos, e que me faz gostar tanto deles, é a sensação aconchegante e hospitaleira que sua escrita transmite; algo que me lembra que escrever é possível. Não é necessário um grande tema, nem uma linguagem rebuscada ou uma trama rocambolesca. Ursula me lembra que escrever pode ser simples, caloroso e humano.
Os trechos de hoje foram pinçados do texto “Não tem que ser do jeito que é”. Nele, ela reflete sobre imaginação, a lógica interna das narrativas fantásticas, liberdade e fundamentalismo.
Outra coisa que adoro em seus textos é a maneira como ela entrelaça ideias de forma surpreendente. Se eu pudesse escolher uma pessoa que já não está entre nós pra ter uma conversa, tomando uma xícara de chá quente, seria a própria Ursula.
Ela e Pard, acomodado aos seus pés.
Nº 01:
“Aí jaz a principal diferença entre as imaginações infantis e a literatura imaginativa. A criança ‘contando uma história’ deambula entre o imaginário e o ‘meio-compreendido’ sem saber a diferença, contente com o som da linguagem e o puro jogo da fantasia sem um objetivo em particular, e esse é o charme da coisa. Mas as fantasias, sejam elas contos populares, seja literatura sofisticada, são histórias na concepção adulta, que exigem sentido. Elas podem ignorar certas leis da física, mas não da causalidade. […] Caso contrário, o ouvinte ou leitor do conto será colocado à deriva num mar de inconsistências inconsequentes ou, pior ainda, será deixado para se afogar na poça rasa do pensamento ilusório do autor.”
Nº 02:
“Não tem que ser do jeito que é. Isso é o que diz a fantasia. Não que ‘vale tudo’ — isso é irresponsabilidade, quando dois mais um somam cinco, ou 47, ou não importa, e a história ‘não se encaixa’, como dizemos. A fantasia não diz: ‘Nada é’, isso é niilismo. E não diz, ‘deveria ser desse jeito’ — isso é utopianismo, um projeto diferente. A fantasia não é melhorativa. O final feliz, por mais aprazível que seja para o leitor, aplica-se apenas aos personagens; trata-se de ficção, não de predição ou prescrição.
Não tem que ser do jeito que é é uma declaração lúdica, feita no contexto da ficção, sem pretensão de ‘ser real’. No entanto, é uma declaração subversiva.”
Nº 03:
“A subversão não convém a pessoas que, sentindo-se bem-ajustadas à vida, querem que as coisas continuem como estão, ou a pessoas que precisam do apoio da autoridade assegurando-lhes de que as coisas são como têm de ser. A fantasia não apenas pergunta ‘E se as coisas não seguissem assim como são?’, mas demonstra como poderiam ser se seguissem de outra forma — roendo dessa forma o próprio fundamento da crença de que as coisas têm que ser do jeito que são.
Portanto, aqui a imaginação e o fundamentalismo entram em conflito.”
Nº 04:
“Aqueles que descartam a fantasia de forma menos feroz, de uma postura menos absolutista, geralmente a chamam de sonho ou escapismo […].
Quanto à acusação de escapismo, o que significa escapar? Escapar da vida real, da responsabilidade, da ordem, do dever, da piedade, é isso que a acusação implica. Mas ninguém, exceto o mais criminosamente irresponsável ou lamentavelmente incompetente, foge para a prisão. A direção da fuga é a liberdade. Então, o escapismo é uma acusação de quê?”
QUEM PINÇA
Lara Torres nasceu no interior paulista, em 1990. É graduada em jornalismo, com especializações em Cinema Documental e Gestão de Projetos Culturais. É escritora de ficção e idealizadora da Casa Inventada.






Ursula ❤️